Berteges

Certeza da Incerteza

Pego a estrada frequentemente. Deixo para trás, espôsa, filho, filha, filho, filha pequena. Minha mãe também mora comigo. Não é a vida que pedi para Deus, mas fornece o sustento para toda a minha história. Minha familia sofre com minhas partidas, meus sumiços que às vezes demoram meses. Pego a estrada de norte a sul, sul a norte, sul a oeste, leste a sul e todas as combinações possíveis dos pontos cardeais. Não tenho GPS, vou com meus mapas velhos, amigos que me fazem companhia por mais de vinte anos. Já encontrei a morte no caminho por muitas vezes e talvez seja por isso que não mais tenho medo dela, vejo-a pelo pára-brisa. Já vi criança morta, mãe morta, velho morto, cachorro morto. Graças à Deus tive sorte, digo, proteção Divina. Em único acidente nestes velhos tempos quase dei de cara com ela, o cinto me salvou, me amarrou aqui na terra. Foi um milagre, dei então o nome de Elvira para a filha mais nova.
Sempre sigo estrada acompanhado por meu rádio, meus CDc, minhas músicas, minhas memórias. Quase não vi e vejo o crescimento de meus filhos e nem mesmo as rugas de minha espôsa que aparecem e denunciam a minha falta em sua pele. Quando um casal permanece junto não percebe o envelhecimento, o dia a dia não permite verificar os detalhes do tempo, é magia de Deus . No nosso caso, a cada visita, percebemos o quanto o tempo tira de nossas vidas conjuntas. Cheguei por vezes me desesperar de saudade, dar um cavalo de pau e voltar aos braços de Alzira, mas e depois? Desisto e volto à estrada dura, quente, asfalto, fria e que por muitas vezes me revela quem sou. Viajar sozinho é meditar, passam-se tantas coisas na cabeça da gente.
Toda vez que volto levo presente, uma lembrança para cada um da familia. Para minha mãe sempre eu trago um lenço que depois ela leva à igreja e oferece ao seu Santo de devoção para minha proteção. Tem sempre que ser um lenço branco. Para os meus filhos, nada de muito valioso, objetos de artesãos que encontro pela estrada, petéca, pião, boneca de pano, essas coisas. Para minha mulher já não levo mais nada, apenas a minha volta e dizeres no pará-choque: "Em breve retorno para te amar".

E dezoito dias após completo silêncio
A quietude se rompe, não pela minha parte, felizmente.
Então, depois de quase onze meses disso tudo,
Relembro do desprezo, das mentiras, da agressividade, da falta de sensibilidade e tantas outras coisas...
Relembro como você me tratou de idiota...
E o melhor tratamento pra isso qual seria?
Xingamentos, ironia, ofensas?
Não... Nessa hora preferi a frieza.
Nada melhor que não dar atenção, tratar secamente...
Isso foi bom!
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Is your time comin', baby?

Tive que morrer pra ser lembrado.
Enquanto você sorria longe, do meu lado.
Morri e fui imortalizado.
Em vida, nunca fui homenageado.

Agora são flores que não posso tocar.
Lembranças que os fazem chorar.
Saudades e histórias pra contar.
Enquanto vejo os sorrisos a sua face estampar.

Todos recordam momentos felizes agora.
Felicidade nunca conheci contigo, nem por meios, nem por meia hora.
Somente quando apontam meus erros, você se aborrece e chora.
Nunca a vi me defendendo, foi preciso que eu fosse embora.

Nunca fui boa pessoa, mas incrível como agora sou.
Nunca estive tão acompanhado, incrível como agora estou.
Nunca disse que me amava, mas agora falou.
Nunca quis me abraçar, somente agora tentou.

São inúteis as tentativas.
Serão inúteis até vir me encontrar.
Talvez encontre alguém pra me esquecer.
Até porque o fez, até meu corpo falecer.

Minha alma clamou, em vida, os presentes que me são dados em morte.
Pedi sua companhia, enquanto podia sentir-lhe, mas fui entregue a minha própria sorte.
Quis um ombro amigo, quando ainda podia me apoiar.
Queria ouvir suas palavras, mesmo sem sentido, enquanto podia lhe escutar.

Agora é tarde pra quem vai.
Seria cedo, quem estava aqui?
Ainda há tempo pra quem ficou.
E quem sabe quanto irá durar?

Há quanto tempo aquela porta permanecia imóvel?, nem parecia uma porta pois não tinha mais essa missão. Não sabia mais quanto tempo a porta permanecia assim sem que eu a manuseasse com a intenção de sair, não tinha idéia do tempo, pois este havia sido amputado de minha mente. Por um instante pensei em chegar perto dela, mas, o intento me assustava e resolvi recuar. Abri as janelas e deixei o vento que soprava incessantemente assoviando entrar. O assovio parou, senti então neste momento o ar batendo em minha face como quisesse fazer-me enxergar a realidade. Reparei neste instante que algumas senhoras estavam passando apressadas e segurando seus vestidos que insistiam em sair do lugar. Ri da piada. O vento continuava e mesmo com as nuvens escuras penduradas no céu estas insistiam em não derramar suas lágrimas. Acho que esperavam as minhas. Senti um nó na garganta e tentei esquecer o que se passou com aquela porta. Não queria lembrar, não queria sofrer, não queria chorar. Minha companhia era a escura solidão, não a via, como o ar, mas sabia que não abandonaria a minha companhia. Talvez gostasse de mim e era fiel como um cão. Neste instante lembrei do meu cão, morreu novo, não conseguiu passar todo o amor que havia projetado para sua vida para mim, sei que ele queria me passar mais, era sua intenção, mas, um câncer no estômago o levou antes de terminar a sua tarefa. Pensei que a melhor coisa realmente era ficar só, não haveria mais sofrimento, não haveriam mais perdas. Nunca entendi bem as perdas, nem mesmo as financeiras, a gente ganha dinheiro e perde, gastando ora para sobreviver, ora por bobagens inúteis. Pra que trabalhar, ganhar para depois perder?. As perdas de pessoas a que amei, estas incompreensíveis. Pra que darmos tanto amor para depois perdê-las? por um momento conclui que a "melhor" perda era a da consciência, esquecemos, pelo menos, por um momento, o que somos e o que viemos fazer aqui. Achei que estava muito filosófico e resolvi beber um whisky, fazia tempo que não me dava esse prazer, acho mesmo que queria naquele momento era perder "um pouco" a consciência de toda essa história que passava na minha cabeça. Acendi então um cigarro e baforei para o ar, percebi que a fumaça adquiria forma de infinito. Me fez bem. O vento cada vez mais forte entrava por entre a janela e me banhava enquanto me deliciava com a bebida e com o fumo. Alguém então neste instante resolveu invadir o meu momento de prazer batendo na porta. Não sabia se queria atender, queria ficar só e ao lado da solidão que ainda não me dava as caras mas sabia que podia contar com ela e ela comigo. As batidas se tornaram insistentes e ficavam cada vez mais frequentes. Resolvi então me levantar, e, para o meu espanto era Alzira, a mulher de minha vida, havia sumido quando eu estava no auge da paixão. Estava um pouco mudada, mas quando me ofereceu um leve levantar de sobrancelhas tinha certeza que era ela. Me senti feliz por um momento, o que já era muito para mim. Não lembrava ao certo quando tinha tido outro momento parecido. De repente o vento trouxe uma mecha de cabelos à face de Alzira encobrindo um de seus olhos, o que tomei a iniciativa e voltei a mecha para atrás de sua orelha. Fiquei paralisado e como não sugeri dela entrar, o vento fez com que ela desse alguns passos à frente da sala que ela já conhecia e que permanecia intacta , do jeito que havia deixado há três anos atrás. Reagi à realidade, pedi para ela entrar e fechei a porta do meu cofre. Não havia palavras, apenas os olhares de saudade que se transmitiam olho a olho diziam tudo. Permanecemos assim por algum tempo como se para comprovar que aquele momento mesmo existia. O vento continuava a entrar por entre a janela, a chuva não vinha e a porta permanecia como de costume, fechada. Por um momento lembrei da minha amiga solidão o que ela deveria estar sentindo?. Será que estaria enciumada?. Deixei isso para depois, ofereci um drink para Alzira sendo que ela o recusou. Sentou-se na poltrona vermelha, a sua preferida, e eu ao seu lado na cadeira de balanço, ferramenta da solidão. Chegou então perto de mim, passou seus dedos por minha testa fazendo um imaginário infinito. Me senti no infinito, no infinito dos desejos de um homem, no infinito amor de Deus. Nessa hora me senti tocado no meu ombro. Olhei para o lado oposto de Alzira e vi que a solidão estava a me chamar. Disse-lhe então que não mais podia ficar com ela pois a minha amada havia voltado e com certeza gostaria de ficar comigo. Me despedi então agradecendo pelos momentos, anos que ela havia estado comigo, principalmente a importância dela quanto aos entendimentos de minha vida. Levantei de súbito, Alzira se espantou, fui até a porta e abri a porta para a solidão. Ela se despediu indo embora com o vento.

Lavava a alma
e a estendia no varal
que a balançava
por um vento sútil.
Quando de muito sol,
a colocava junto à sombra
e a deixava descansar.

Masco um chiclete
tiro o gosto
mordo a língua,
céu da boca assiste,
...sangue e saliva,
as estrelas aparecem
uma sombra passa pela boca,
aumenta,
você!,
e um beijo.
saliva,
sangue,
hortelã
... e amor.

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